Manifestação

5 Jul

-De onde você é?bandeira

-Do Brasil.

-Brasil! Emergente! E… por que você está morando aqui?

Um dos melhores saldos das manifestações até agora, a meu ver, foi riscar um pouco a imagem brasileira de país-pop-emergente que é divulgada para o mundo. Do outro lado do Atlântico, eles se limitam a saber que temos emprego (o que anda escasso em terras européias e fez a dona da loja não entender que raios estou fazendo aqui). Porém, não têm ideia de tudo o que falta, exatamente tudo o que os brasileiros andam reivindicando nas ruas: que nas nossas maiores cidades não há metrô suficiente (o mapa do metrô de São Paulo é ridículo se comparado ao de outras metrópoles, bem menores e menos populosas que ela), que portanto morar longe do centro faz as pessoas perderem 4 horas por dia em ônibus lotados, que não temos saúde pública de qualidade e quem pode paga horrores pelos planos particulares, que a escola pública deixa muito a desejar, et cetera. A gente conta aqui e ali, deixando-os de boca aberta – e o que os últimos acontecimentos fizeram foi deixar muito mais gente de boca aberta.

Podemos pensar que no primeiro mundo eles reclamam de barriga cheia. O bem-estar social foi abalado com a crise, os cortes são reais, mas no geral o povo continua a ter um bom transporte, escola, segurança, saúde. Mas talvez exatamente por sempre reclamar eles tenham chegado a ter o que têm, e neste momento precisam lutar para não perder o que conquistaram. E dá-lhe greve geral.

Não quero parecer mais uma a lembrar as mazelas do Brasil só porque estou estudando fora um tempo, mesmo porque irei voltar e nenhuma dessas questões é novidade. Só quero deixar registrado meu apoio ao que se passa e minha torcida para que algo relevante mude. Daqui de longe, fica mais claro que no nosso país as cidades não foram feitas para as pessoas. Foram feitas para qualquer outra coisa: carros, caminhões, empresas, menos para as pessoas.

São Paulo, por sua importância, é o modelo da falha pública tupiniquim. Como paulistana, não gosto quando a acusam a cidade, como se ela fosse culpada pelo que se tornou. São Paulo é seus governantes e seus moradores, nascidos lá ou não. Suas tragédias diárias fogem do controle. Há tempos, foi rebaixada ao status de provedora de renda. É explorada por workaholics, que chupam seu potencial como sanguessugas em busca de sucesso, dinheiro, carros cada vez maiores e apartamentos em condomínios cada vez mais murados. Uma baia sem fim, enfurnada dentro de paredes espelhadas, que intercala seu tempo de atividade com cafés de máquina e pausas para o cigarro. Tudo para um dia sair dela, afinal ninguém vive em São Paulo: apenas se aguenta São Paulo, até se alcançar o que queria ou ter um ataque cardíaco. E viva o São Rivotril, padroeiro da ansiedade urbana.

É claro que o fato de estar longe também coloca uma lente de aumento nos pontos positivos de onde você veio. Mas ao analisar racionalmente a saudade, vejo que ela se foca no humano. O aconchego da família, o sorriso do garçom, a amizade fácil, aqui não tem. Ah, sim, sentimos falta da comida, mas a vida é muito mais que uma feijoada de domingo. O que quero dizer é que a esperança está nas pessoas. Nós, que somos as cidades, que somos o Brasil. Para avançar é preciso agir. Ou liberamos o que estava entalado ou morremos de indigestão.

Como me disse um sábio antes da minha partida, “as vivências em outras terras nos ensinam muito sobre nós mesmos e sobre o nosso país. É preciso estar distante para estar dentro”.

Até mais.

Viaje

29 Apr

Ella en el interior del vagón. En el interior de ella, el vagón de las cosas que dejó atrás para que pudiera estar allí ahora. Abandonó el país, estación de partida para el mundo. El empleo, ahora una niebla en el pasado. La familia, ahora solo en vacaciones. Dejó todo para agarrar el deseo de conocer otras tierras, el subterráneo de la vida. Quedarse en la superficie ya no le hacía ningún bien. Mira otras caras, siente otras vibraciones. Un anciano, un punk, un borracho, un ciclista. Apresurados, turistas, músicos nómades. A cada estación, un nuevo registro en la memoria, el cerebro formateado para lo que está por venir. Es la semilla descubriendo nuevo suelo para nacer una nueva rosa. Aquella que ella era, desembarcó en el tiempo. Próxima parada: vivir.

 

 

Texto escrito para o concurso de Sant Jordí da TMB, Barcelona, categoria Relats Curts. A história tinha que ter a ver com metrô ou ônibus.

Manchetes

1 Apr
Salário de políticos é cada vez menor, Novo sistema carcerário elimina celulares das prisões, Coréia do Norte assina tratado de paz, Acidentes de trânsito chegam a zero no feriado, Preço da gasolina cai pela metade, Porcentagem de lixo reciclado dobra no último ano, Fim da fila de espera para transplante, Alunos da rede pública chegam à universidade sem cotas, Igreja vende seu ouro e distribui aos pobres.
Primeiro de abril.

Medo

12 Mar

bikesTenho medo dos motoristas bêbados de madrugada. Das overdoses noticiadas. Da bomba atômica silenciosamente guardada. Das guerras interminadas. Dos valores invertidos. Do lixo produzido a cada semana. Dos carros vendidos a cada segundo.

De ter um filho num mundo de motoristas bêbados, overdoses, guerras, valores escassos, lixo e carros em excesso.

Medo ou tristeza profunda?

Medo do medo que dá, como Lenine.

Medo, principalmente, da falta daquilo que um dia nos fez ser chamados de humanos.

Balanço

28 Feb

6 meses sem carro. vista

6 meses de alioli.

6 meses sem televisão.

6 meses de churros.

Quase 6 meses sem chuva.

6 meses de vinho, clara, cava e vermute.

6 meses de saudade.

6 meses de hola.

6 meses sem trânsito.

6 meses de bravas, calamares, paella e champignon.

6 meses sem pão de queijo.

6 meses de cabello de ángel.

Praticamente 6 meses sem feijão.

6 meses de praia.

Cerca de 6 meses sem usar biquíni.

6 meses que voaram.

6 meses que ficaram.

 

Anti-social

30 Jan

photo(17)Achei que estava viciada demais no livro de faces. Qualquer tempinho livre, em casa, no metrô, no café, ou mesmo não livre, durante o trabalho, lá estava eu dábliu dábliuzando facebook.com, lendo a bendita num scroll infinito, um minuto que às vezes se transformava em muitos.

Semana passada, num surto, decidi ficar uma semana sem acessar. Deletei o aplicativo do celular e me policiei para não acessar do computador. E eis o que se passou.

Logicamente, tive ímpetos de entrar. Mas com os dias eles foram diminuindo.

Não deixei de falar com a família nem com amigos reais pois para isso usei o celular e o velho e bom email.

Nos momentos de espera, li mais os aplicativos de notícias que tenho no celular.

Acessei o Instagram, como sempre, o que me toma muito menos tempo.

Descobri mais sites ligados ao meu trabalho. Coincidência ou não, encontrei o que buscava há um mês. Escrevi mais, sem tantas pausas.

Ah! Antes de completar uma semana, o Facebook me enviou um e-mail. Sentiu a minha falta, e me avisou que eu estava perdendo muitas novidades, que vários amigos tinham atualizado seus status e que eu tinha mensagens não lidas. Resisti.

Entrei hoje. Bom, perdi um evento marcado pelo Facebook. Mas creio que se fosse mesmo para eu ir alguém teria me ligado.

Deixei de ver os posts sobre a vida de quem não vejo pessoalmente há 10 ou 20 anos.

Continuei sem ver os posts daqueles amigos que nunca postam nada.

Perdi os status dos amigos que conversam com o próprio Facebook, e daqueles que postam cada passo do seu dia.

Perdi as reclamações sobre o trânsito, a chuva e os políticos.

Deixei de ver mensagens de auto-ajuda e li mais antes de dormir meu livro atual de cabeceira, por acaso uma crítica aos livros de auto-ajuda.

Perdi ou ganhei?

Quase

12 Dec

strogoÀs vezes me perguntam por que não viro vegetariana. Às vezes eu me pergunto por que não viro vegetariana.

Hoje me peguei preferindo o sabor do tomate ao das almôndegas. Sou capaz de almoçar só salada. Adoro legumes. Frutas, nem se fala, só me atrapalha um pouquinho a preguiça de cortar.

Acontece que também gosto de carne – mas aí depende. Da textura, do tempero. Chega a ser impossível de explicar, mas tem umas que amo e outras que odeio.

Acho que vim com defeito neste quesito, desviei da fila lá no céu, e deixei toda a vontade carnívora para a minha irmã. Desde pequena foi assim, eu dando trabalho para comer carne, meu pai ficando neurótico, achando que a menina ia ter anemia.

Os maiores problemas vêm das vermelhas. Mas também entro em enrascadas com gostos estranhos em aves e peixes – afinal, que horror é comer frango com gosto de frango e peixe com gosto de peixe. Não tem coisa pior do que deixar comida no prato e sair com fome do restaurante.

Como dá para ver, minha aversão não é filosófica. Matam os bichos, tudo bem, é a cadeia alimentar, e não vou ser louca de assistir aqueles vídeos que mostram abatedouros. O máximo que fiz foi ver um vídeo em que o Jamie Oliver mostrava para crianças como se fazia nuggets. Parei de comer, mas um belo dia tive recaída. De tanto falarem, também já parei de comer salsicha. Voltei, e nossa, como amo cachorro-quente.

Não viro vegetariana pela carne de panela da minha mãe.

Pela porpeta da minha avó.

Pelo bife à milanesa da minha sogra.

Pela picanha finiiiinha que o tio Marcelo corta pra mim.

Pela coxinha de frango do Veloso.

Pelo meu strogonoff.

Pelo salmão, pelo peito de peru, pelo salame – aqui, chorizo.

Se eu fosse vegetariana, não teria provado outro dia um hambúrguer sensacional aqui de Barcelona, os increíbles “huevos rotos” e um frango assado com molho indescritível de Madrid, só para falar dos sabores mais recentes.

Pronto, me convenci.