Archive | August, 2015

A volta

1 Aug

IMG_9009Parecia muito tempo. Dois anos e meio fora, uau. Lágrimas, abraços, e um mundo novo se abria à nossa frente. O primeiro foi de descobertas. Sangue pulsante para ver e entender o máximo possível daquilo tudo. Éramos um misto de turistas e moradores, a volta tão distante. O segundo foi vez de sentir-se em casa. De ter já os lugares preferidos, a rotina montada, sem deixar a curiosidade de lado para desvendar os detalhes mais escondidos. O terceiro meio ano, ah, esse passou voando, num misto de ansiedade e despedida.

A verdade é que parece que foi ontem que estávamos de mala, cuia e gato embarcando para o desconhecido de outro país. Passou como um raio e eis que chegou o triste e feliz dia do retorno. Agora era mais complicado: os abraços e lágrimas do embarque, os abraços e lágrimas do desembarque. Passei as últimas semanas em Barcelona olhando para os lugares com engasgo na garganta, incrédula de que a temporada já estava acabando. Comendo sanduíches de jamón e churros que tinham sabor de adéu. Devolvendo livros na biblioteca que me era tão íntima. Me despedindo dos amigos a cada encontro, de seu parlar català tão característico. Mergulhando na piscina onde aprendi a nadar, olhando o mar, pela “última” vez. Vendo minha bicicleta ir-se das minhas mãos – e também cadeiras, mesa, cama, sofá, meu espelho querido recolhido da rua, minhas almofadas de crochê que nem em sonho caberiam na bagagem. Costurava as memórias na minha cabeça para guardá-las apertadas, para sempre.

Para ajudar, chegamos em São Paulo num domingo de sol. Calmo e tranquilo, como a vida que tínhamos do outro lado do oceano. Lá, nesse respiro, pude desenvolver novos olhares sobre o mundo, sobre mim, e também sobre o lugar que me pariu e criou. Ouvi um amigo dizer que sair do país faz com que vejamos melhor o que havia de bom ali, na sua cidade natal. E é desse bom que nasce a saudade, sentimento que um echar de menos nunca vai expressar tão bem.

E eis que o relógio começou a correr. No cronômetro daqui, não havia um minuto a perder. Imersa outra vez no caos da metrópole, as sensações se mesclavam: raiva, conforto, decepção, energia, medo, coragem. Revivia sabores, sorrisos, paisagens. Comida da mãe, reuniões de família, garçons gente boa. Reaprendia a transitar pelas ruas, a entender os processos. Como numa tela em branco, desenhava um esboço de vida, que aos poucos ganhava suas cores. Casa, trabalho e caminhos novos, agora sem carro. Do zero, seguindo em frente sem pausas. O tempo, que no velho mundo quase dava para segurar nas mãos, lento que passava, aqui delas já escapava num piscar de olhos.

É sintomático que este texto só tenha ido agora para o papel. Fazem exatamente 6 meses. Meio ano de ritmo frenético injetado na veia a cada manhã, e o cérebro obrigado a processar. Algumas palpitações e insônias depois, ele já entendeu.

Há 6 meses embarcávamos de mala e cuia e gato de volta, para um lugar que nunca mais seria o mesmo, já que nós estamos diferentes. Do que mais sentia falta daqui? Do agito, 24 horas on. Ironicamente, do que mais sinto falta de lá? Da calma, da siesta que tanto me irritava. Como ouvi de outro amigo, o maior defeito de uma coisa é também sua virtude. O que faz enxergar que não existem lugares perfeitos, e cabe a nós extrair deles o seu melhor.

E ainda me pego maravilhada com pequenas coisas. Como o motorista do ônibus parar para você subir fora do ponto. O metrô cheirando a pão de queijo, o milho verde e a pipoca na saída. A jarra abundante de suco de laranja, a gritaria no bar, a alegria doida a cada esquina e que faz pensar: “só no Brasil!”. É bom estar de volta, retinas em treinamento, apesar de carregar no peito um coração eternamente dividido.