Archive | February, 2014

Eu acredito em universidade

18 Feb

O trote (trote?) grotesco realizado por veteranos da Cásper Líbero esta semana, amplamente divulgado na Internet, me fez voltar no tempo e recordar minha entrada na ECA, no final da década de noventa (o que me assusta, mas apenas por denunciar quantos anos já se passaram daquela época). Fui fazer a matrícula e meus veteranos, muitos dos quais seriam meus amigos e com quem tenho contato até hoje, me pintaram e registraram minhas mãos com guache em uma folha de papel, que ainda guardo em algum baú. Lembro do banho demorado para tirar toda aquela tinta, muito menos trabalhoso do que meu ano de intenso estudo, e insignificante perto da felicidade de entrar onde eu tanto tinha desejado.
Esses dias mesmo comentava, em uma conversa, como adolescentes podem ser cruéis em certas atitudes. A situação piora quando se trata de pessoas (pessoas?) que já passaram da adolescência, tiveram acesso a educação (educação?) e já ingressaram em uma boa universidade. É triste pensar que alguém nessas condições possa supor que tem o direito de humilhar alguém em praça pública, em um ato que pode ser chamado de violência, agressão, falta de respeito, menos de trote. A vantagem que os novos meios nos dão, hoje, é a ampla repercussão de casos como esses. Mas, eles serão punidos?
É especialmente triste para mim, que acredito na universidade como fonte de conhecimento e evolução social. Desde o início, tive que conviver com o descrédito de alguns chefes que não davam valor ao acadêmico, como a maioria dos profissionais do mercado. O dilema diário continuou, depois, ao me dividir entre o emprego como redatora e o mestrado, questionamento acalmado quando um grande professor deu sua aula sobre Pierre Bourdieu e as noções de capital e campos. Me compreendi como agente jogando em dois deles, de valores diferentes, e não podia esperar que as mesmas regras se aplicassem em ambos. Mais tranquila, continuei minha trajetória aqui e ali.
E, sim, ainda acredito em universidade. Acredito, tanto que recentemente parei tudo para me dedicar à minha tese de doutorado. Para me aprofundar em um tema que considero relevante, para voltar à universidade e novamente viver o seu dia a dia, mas de uma forma amadurecida e com um sentimento não de obrigação, que temos aos 18 anos, mas de escolha.
Tenho esperança de que, um dia à frente de uma sala de aulas, eu possa ser um uma pequena fatia do que meus melhores professores significaram para mim, despertando o interesse em crescer e contribuir para ampliar os limites do já visto. O acontecimento universitário que virou manchete reflete, principalmente, o problema generalizado, talvez o mais grave de todos os que se tem apontado no nosso país: o da falta de educação. Educação desde casa, propagada pela escola, seguida pela universidade e depois novamente em casa, para os filhos. É um ciclo. Um ciclo que deve aprimorar o conhecimento, mas, antes de tudo, aprimorar o ser humano.

Outras manifestações sobre o assunto:

http://www.brasilpost.com.br/gilberto-dimenstein/por-que-sinto-vontade-de-_b_4772267.html
http://www.brasilpost.com.br/bianca-santana/indignacao-tristeza-e-ver_b_4773249.html
https://www.facebook.com/daniela.abade/posts/10152278899656495