Archive | October, 2013

Do lado de lá

14 Oct

IMG_8691Deu 19h no relógio. Olho o céu para conferir se já havia escurecido, descobrindo que as luzes automaticamente acesas dos edifícios não me permitiram perceber a chegada da noite. Por trás do brilho da publicidade incansável, anoitece uma Hong Kong que nunca dorme.

Vista do alto do teleférico, de dia, é um mar de prédios e silêncio, uma baía azul-clara de paz e contemplação. Vista desde Kowloon, a ilha oposta, à noite, é um oceano de luzes, cores e janelas. Espetáculo de tecnologia vibrante, tela de computador acelerando nossos olhos e acendendo nossas mentes ininterruptamente.

Então, ao aproximar o olhar das ruas, vibra a Hong Kong das pessoas. Elas, que dão vida e sentido às luzes e arranha-céus. Elas, que circulam pela terra ou debaixo dela, seja nas calçadas, mercados e centros comerciais, seja nos metrôs amplos, novos, organizados e lotados, seja qual for o momento do dia, em uma hora do rush eterna. Elas, muitas das quais trabalham nas fábricas mais longínquas, produzindo a salários diminutos as maravilhas expostas pelas grandes marcas em Causeway Bay ou as quinquilharias amontoadas nas bancas de Mong Kok.
Hong Kong é do consumo, do trabalho, dos carros, das passarelas suspensas para pedestres (porque o chão já não basta). Eles são muitos. Tente parar de repente em uma calçada para tirar uma foto e você causará uma certa confusão aos que caminham com um objetivo mais certo que o seu, viajante deslumbrado que olha para cima e para os lados. Eles olham para a frente. Sem pausas.

Os cafés que encontramos em cada esquina em uma cidade européia são substituídos pelos patos apetitosos pendurados em vitrines, a costela de porco adocicada para viagem, a lanchonete especializada em tofu, o waffle em forma de bolas crocantes, as sobremesas de feijão, gergelim e outros sabores inesperados. Ao lado, sopas de tartaruga e farmácias que parecem mercados com suas ervas e especiarias medicinais. Mais adiante, senhorinhas idosas e bem das costas catam papelão, fazendo inveja ao nosso preparo físico capenga, enquanto trabalhadores se penduram sem medo em andaimes de bambu. No meio desse caos, você logo aprende a se virar, deixando-se perder para depois se encontrar. Aprende, inclusive, a não esperar guardanapo no restaurante e papel higiênico no banheiro, e a carregar seus próprios lenços de papel. Em casa, sapatos deixados na porta de entrada. Muito chá, calma, hospitalidade, arte, livros, caligrafia e a sabedoria de que o corpo do futuro é aquele que se cuida agora. Um choque bem dado de tradição oriental, mesmo sem estarmos exatamente na China.

Hong Kong fica em mim como paradoxo. A modernidade e o milenar se encontrando a todo momento, fazendo nossa cabeça girar em uma frequência outra. Volto para a tranquilidade de uma Barcelona que vejo com outros olhos, grudadas que estão em minha retina as imagens do lado de lá.

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