Archive | July, 2013

Manifestação

5 Jul

-De onde você é?bandeira

-Do Brasil.

-Brasil! Emergente! E… por que você está morando aqui?

Um dos melhores saldos das manifestações até agora, a meu ver, foi riscar um pouco a imagem brasileira de país-pop-emergente que é divulgada para o mundo. Do outro lado do Atlântico, eles se limitam a saber que temos emprego (o que anda escasso em terras européias e fez a dona da loja não entender que raios estou fazendo aqui). Porém, não têm ideia de tudo o que falta, exatamente tudo o que os brasileiros andam reivindicando nas ruas: que nas nossas maiores cidades não há metrô suficiente (o mapa do metrô de São Paulo é ridículo se comparado ao de outras metrópoles, bem menores e menos populosas que ela), que portanto morar longe do centro faz as pessoas perderem 4 horas por dia em ônibus lotados, que não temos saúde pública de qualidade e quem pode paga horrores pelos planos particulares, que a escola pública deixa muito a desejar, et cetera. A gente conta aqui e ali, deixando-os de boca aberta – e o que os últimos acontecimentos fizeram foi deixar muito mais gente de boca aberta.

Podemos pensar que no primeiro mundo eles reclamam de barriga cheia. O bem-estar social foi abalado com a crise, os cortes são reais, mas no geral o povo continua a ter um bom transporte, escola, segurança, saúde. Mas talvez exatamente por sempre reclamar eles tenham chegado a ter o que têm, e neste momento precisam lutar para não perder o que conquistaram. E dá-lhe greve geral.

Não quero parecer mais uma a lembrar as mazelas do Brasil só porque estou estudando fora um tempo, mesmo porque irei voltar e nenhuma dessas questões é novidade. Só quero deixar registrado meu apoio ao que se passa e minha torcida para que algo relevante mude. Daqui de longe, fica mais claro que no nosso país as cidades não foram feitas para as pessoas. Foram feitas para qualquer outra coisa: carros, caminhões, empresas, menos para as pessoas.

São Paulo, por sua importância, é o modelo da falha pública tupiniquim. Como paulistana, não gosto quando a acusam a cidade, como se ela fosse culpada pelo que se tornou. São Paulo é seus governantes e seus moradores, nascidos lá ou não. Suas tragédias diárias fogem do controle. Há tempos, foi rebaixada ao status de provedora de renda. É explorada por workaholics, que chupam seu potencial como sanguessugas em busca de sucesso, dinheiro, carros cada vez maiores e apartamentos em condomínios cada vez mais murados. Uma baia sem fim, enfurnada dentro de paredes espelhadas, que intercala seu tempo de atividade com cafés de máquina e pausas para o cigarro. Tudo para um dia sair dela, afinal ninguém vive em São Paulo: apenas se aguenta São Paulo, até se alcançar o que queria ou ter um ataque cardíaco. E viva o São Rivotril, padroeiro da ansiedade urbana.

É claro que o fato de estar longe também coloca uma lente de aumento nos pontos positivos de onde você veio. Mas ao analisar racionalmente a saudade, vejo que ela se foca no humano. O aconchego da família, o sorriso do garçom, a amizade fácil, aqui não tem. Ah, sim, sentimos falta da comida, mas a vida é muito mais que uma feijoada de domingo. O que quero dizer é que a esperança está nas pessoas. Nós, que somos as cidades, que somos o Brasil. Para avançar é preciso agir. Ou liberamos o que estava entalado ou morremos de indigestão.

Como me disse um sábio antes da minha partida, “as vivências em outras terras nos ensinam muito sobre nós mesmos e sobre o nosso país. É preciso estar distante para estar dentro”.

Até mais.

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