Archive | October, 2012

Do zero

3 Oct

Imagine zerar a vida. Esvaziar a carteira, os armários, fechar a conta no banco, jogar fora os cartões. Entregar a casa, cancelar o celular, o número inclusive, os canais a cabo e a internet. Tirar tudo do débito automático. Vender a geladeira, a máquina de lavar, a TV, a bicicleta, a mesa, o sofá e o microondas. Pedir demissão no trabalho, picotar os cartões de visita, dizer tchau pra todo mundo. De repente, tudo aquilo não é mais seu. E o que é realmente? O que sobra cabe em uma mala, sem exceder o peso da companhia aérea. O que não tem limite é o sonho, bagagem leve, vai junto pra qualquer lugar.

Quando há um ano e pouco pensamos em mudar de país, não imaginávamos o trabalho que ia dar. Mas muito menos, o novo que viria. E aqui está ele. No ar que se respira. No andar a pé esquecido, no metrô de gente peculiar, nas folhas crocantes de outono (ainda não tão crocantes pois ainda não é tão outono). Na língua que se fala, no gosto que se come, na água que se bebe, no trem de onde alterno visões de estações antigas com estas palavras.

A cada minuto, a gente se surpreende. Com o milenar conservado, as calçadas lisinhas, os idosos nas ruas, os carrinhos de bebê nos ônibus, as praças a cada esquina. Com a pontualidade do trem,  as bicicletas respeitadas,  o vinho barato,  um pão com tomate.

A gente também aprende. A hora esquisita das lojas, do banco, dos correios. A ter paciência e voltar amanhã. A devolver o carrinho quando sai do supermercado. A falar com máquinas. A descansar no domingo porque não tem nada aberto. A viver sem ralo, sem tanque e sem rodo.

Logo, a carteira vazia se enche. Novo banco, novos cartões, novos lugares, um eu mesmo porém diferente.

O desconhecido flutua por todos os lados, mas para topar com ele é preciso mudar a rota, aquela de sempre. O que estraga a vida é a gente se acostumar. Espero que demore bastante.

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