V

29 Jan

 

Dizem que em coração de mãe sempre cabe mais um. Então em coração de vó cabe o Morumbi inteiro.

Avó todo mundo tem, mas só quem teve a sorte de conviver de perto com ela sabe o que faz esse ser tão, eu diria, de outro mundo.

Lembro de catar plantinhas do seu quintal, de cores variadas, e fazer “comidinhas” nos seus Tupperwares. De tirar todas as almofadas do seu sofá junto com meus 11 primos, fazer uma montanha no chão e pular nela até chamarem pro jantar.

Coração de vó não liga pra sofá rasgado, jardim destruído, Tupperware inutilizado.

Lembro dela nos recebendo com seu vestido comprido azul e branco, de faixa estreita na cintura. Uma macarronada sempre à mesa, porpetas crocantes para acompanhar.

Coração de vó tem segredos culinários milenares, que você pode passar a vida tentando: não fica igual.

Lembro de dormir ao seu lado à noite, nas férias, e invariavelmente solicitar uma história da Topsy. Topsy, a cadela que eu nunca conheci, mas que permeou minha imaginação infantil com suas estripulias, contadas por aquela voz doce e paciente.

Coração de vó tem uma biblioteca mirabolante, um túnel do tempo digno de filme – e que só neto pode entrar.

Lembro dos nossos ataques de riso, de quase fazer xixi nas calças. De cantarmos nossa música preferida, uma antiga que ela me ensinou e não escrevo aqui para não ser música de mais ninguém.

Coração de vó é solto, cadenciado, alegria em êxtase.

Amanhã vou fazer porpeta pra ela almoçar. Não importa que eu não saiba o segredo, pois com ela já aprendi um muito maior: o de saber viver.

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2 Responses to “V”

  1. Mi Furtado January 30, 2012 at 1:22 pm #

    Sem palavras (em lágrimas)… Não só me identifiquei com tudo, porque também vivenciei esses momentos, como ainda posso complementar (se vc assim me permitir): ” passei também dias, noites, feriados e férias na minha adolescência na companhia dela, sempre preocupada que eu acordava tarde, tomava café da manhã e logo ia tomar banho, ela dizia: “não pode menina, vc vai ter uma indigestão”.. eu ria, teimava e fazia toda vez a mesma coisa. Me lembro das vezes que fiquei na rua até tarde, batendo papo com meus amigos e ela angustiada não dormia enquanto eu não entrava em casa…Me lembro das noites em que eu lhe contava minhas histórias de amores fracassados, platônicos e ela sempre com um sábio conselho, me dizia “o que é seu está guardado”. Me lembro quando ia prestar vestibular e ela me dizia, normalmente quando nos sentavámos à mesa para almoçar: “Você tem que ser jornalista…eu só vejo você como jornalista”…e não é que ela acertou em cheio….. coisas de vó: a melhor que eu poderia ter com certeza…

  2. Marilene de Assis Furtado January 30, 2012 at 6:16 pm #

    Ju

    As suas porpetas podem não ter ficado iguais as dela mas, o carinho que você lhe deu neste sábado foi,com certeza, o mesmo que ela sempre deu a você desde seu nascimento.
    Quando fui buscá-la na sua casa e a encontreii sentadinha na cadeira da vó do Gui, quieta mas fazendo pose com a sua beleza esmaecida pelo tempo,olhar brilhante e vivo como o de uma jovem sonhadora, tive a certeza de que o sábado na sua casa foi para ela uma injeção de ânimo, de afeto incontido e da certeza que,apesar do Sr. Alzheimer que insiste em importuná-la ela ainda está CONOSCO SIM !!!

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