O não-dito

30 Nov

Passo por uma menina no trabalho com um vestido quase na cintura. Desce

(– Veio só de blusa?)

E começo a imaginar se tudo que a gente pensa virasse instantaneamente um balão de fala, visível para todos e denunciando as mais cruéis observações. Porque por mais Madre Teresa que se queira ser, sempre tem aquele comentário maldoso que você guarda para si, a consciência bloqueia ou o ambiente não permite.

Essa castração é essencial para a convivência em sociedade. Ela estabelece até que limite um pode se meter na vida do outro, assegurando uma certa paz ao dia a dia. De manhã, você encontra a cliente na reunião (– Brega hoje, hein?). No almoço, vê um gordinho comendo fast food (– Não é à toa que tá assim). À noite, fala com o vizinho no elevador (– Ugh, que bafo).

É esse o filtro que perdem alguns idosos, quando os neurônios já não se conectam tão bem. E aquela prima mala fica sabendo, depois de 40 anos de convivência, que não era tão querida. Nesses casos, o bom é que o alvo não retruca, só comenta internamente (– Ah, coitada, não bate bem.)

A verdade é que ninguém está preparado para uma chuva de sinceridade. O sem noção quer continuar achando que é legal. E tudo fica menos verdadeiro do que poderia ser.

Uma vez foi criado um site com fotos dos principais diretores de criação de agências de publicidade, para que sua atuação fosse comentada. Sucesso imediato, logo estava repleto de mensagens positivas e negativas, essas últimas em maior quantidade e sempre anônimas. Porque, afinal, não estamos liberados para isso. O teor dos comentários causou tanta polêmica que a página foi tirada do ar. Excluindo-se os exageros, ali se podia ver o que as pessoas pensavam sinceramente, numa oportunidade rara que encontraram para se expressar. Duvido que, trancado no banheiro, algum profissional em questão não tenha olhado os comentários sobre si mesmo – e refletido um pouco sobre aquilo.

Enquanto não criam um dispositivo que descubra o que andamos pensando – e o Facebook não compra a ferramenta – degustemos as maravilhas do pensamento privativo. Único lugar onde somos livres como a tia-avó, livres como os loucos.

Advertisements

2 Responses to “O não-dito”

  1. mariana December 1, 2011 at 3:45 pm #

    as vezes dá uma coceira na língua e a gente acaba falando o que não devia. apesar de eu ser adepta a sinceridade, em boca fechada (…) não se ouve o que não quer!!!! rsrsrsrsr

  2. MF December 1, 2011 at 5:23 pm #

    Sensacional….acho que todo mundo já passou por situações assim…isto é viver em sociedade…se é bom ou mau…aí já é outro quesito.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

w

Connecting to %s

%d bloggers like this: