Utilidade pública

16 Nov

Era uma vez uma rua sem saída.

Antes

A moça bonita passa e joga uma bituca de cigarro, rosa como seu batom desbotado e cinza como seus pulmões.

O executivo ofegante joga um comprovante de pagamento, do bife à parmegiana que aumentou em alguns pontos seu colesterol.

A loja ao lado joga uma caixa de produtos vazia, como o cérebro do seu dono.

Na caixa vazia o estudante joga um copo de café, que o manteve acordado na aula que não lhe interessa.

Depois

Uma empresa joga um vaso com uma planta. Alguém leva o vaso e ali deixa a planta e a terra, mortas como aquela calçada, fazendo companhia para a bituca, o comprovante, a caixa e o copo de café.

E a entrada da rua vira um lixão.

Por muitos dias passei ali, com a esperança de que o ex-dono da planta a visse, que a prefeitura limpasse, que o lixeiro levasse. Mas nada aconteceu, nada ia acontecer.

Munidos de pá, vassoura e balde, destinamos um tempo do nosso feriado para limpar aquela sujeira que não era nossa, na rua que consideramos nossa.

1 dia depois

Enchemos dois sacos grandes e uma caixa. Colocamos no porta-malas. Levamos a um lixo adequado. Esfregamos com água e sabão. Corremos o risco de uma leptospirose. Nos sentimos mais leves.

No dia seguinte, uma caixa. Hoje, talvez, novas bitucas e copos de café.

A cidade é suja como quem está nela. Porque tem diferença entre quem é da cidade e quem apenas está. Sem compromisso, sem consideração.

Quem fica sem saída somos nós.

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2 Responses to “Utilidade pública”

  1. MF November 17, 2011 at 2:49 pm #

    Esse é o egoísmo que permeia as cidades grandes…

  2. Érika Mateos November 17, 2011 at 3:42 pm #

    Pois é Dna. Ju, a falta de educação que pode ser constatada em imagens como essa, ou como nas fotos q tirei com meu instagram das estradas de SP (retratando a mesmíssima “preocupação higiênica” do nosso povo) só confirma apenas uma coisa: que fazemos parte de uma imensa massa ignorante, da qual ficamos à mercê em tempos de eleição, sendo essas mesmas pessoas àquela grande maioria que elege um palhaço para nos representar no governo. Personagem que, aliás, não poderia ser mais representativo, considerando que é exatamente isso que somos para os nossos governantes: um bando de palhaços. Então, amiga, pá e vassoura na mão para fazer a sua parte, pois a deles jamais será feita. Educação para quê, se é mais conveniente ter essa gente que joga lixo nas ruas como aliadas nas falsas promessas, nas leis que não funcionam e num Brasil que retrata o próprio sentimento de sua população com relação a ele: um verdadeiro lixão!? Infelizmente, a gente que guarda um papelzinho de chiclete no bolso para não jogar no chão da nossa cidade, da mesma forma que nunca faríamos no chão da nossa casa, somos minoria. E o pior de tudo, é que quando digo “massa ignorante” não me refiro ao grau de estudo, mas ao grau de consciência, mesmo. Já que tive a infelicidade de ouvir recentemente de uma pessoa pós-graduada que se ela não jogar o lixo na rua, ela estará contribuindo para a falta de emprego dos garis. Por essas e outras, eu vou “daquipálá”.

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