Archive | November, 2011

O não-dito

30 Nov

Passo por uma menina no trabalho com um vestido quase na cintura. Desce

(– Veio só de blusa?)

E começo a imaginar se tudo que a gente pensa virasse instantaneamente um balão de fala, visível para todos e denunciando as mais cruéis observações. Porque por mais Madre Teresa que se queira ser, sempre tem aquele comentário maldoso que você guarda para si, a consciência bloqueia ou o ambiente não permite.

Essa castração é essencial para a convivência em sociedade. Ela estabelece até que limite um pode se meter na vida do outro, assegurando uma certa paz ao dia a dia. De manhã, você encontra a cliente na reunião (– Brega hoje, hein?). No almoço, vê um gordinho comendo fast food (– Não é à toa que tá assim). À noite, fala com o vizinho no elevador (– Ugh, que bafo).

É esse o filtro que perdem alguns idosos, quando os neurônios já não se conectam tão bem. E aquela prima mala fica sabendo, depois de 40 anos de convivência, que não era tão querida. Nesses casos, o bom é que o alvo não retruca, só comenta internamente (– Ah, coitada, não bate bem.)

A verdade é que ninguém está preparado para uma chuva de sinceridade. O sem noção quer continuar achando que é legal. E tudo fica menos verdadeiro do que poderia ser.

Uma vez foi criado um site com fotos dos principais diretores de criação de agências de publicidade, para que sua atuação fosse comentada. Sucesso imediato, logo estava repleto de mensagens positivas e negativas, essas últimas em maior quantidade e sempre anônimas. Porque, afinal, não estamos liberados para isso. O teor dos comentários causou tanta polêmica que a página foi tirada do ar. Excluindo-se os exageros, ali se podia ver o que as pessoas pensavam sinceramente, numa oportunidade rara que encontraram para se expressar. Duvido que, trancado no banheiro, algum profissional em questão não tenha olhado os comentários sobre si mesmo – e refletido um pouco sobre aquilo.

Enquanto não criam um dispositivo que descubra o que andamos pensando – e o Facebook não compra a ferramenta – degustemos as maravilhas do pensamento privativo. Único lugar onde somos livres como a tia-avó, livres como os loucos.

Vida light

23 Nov

Salpicão de frango do Cervantes, RJ, hummm.De uns tempos para cá, a vida anda mais difícil. Verdade seja dita: era bem mais simples quando a minha mãe fritava no óleo (de soja e ponto) couve-flor, polenta, porpetas, bifes e banana à milanesa. Cresci com essas gostosuras na mesa, comendo sem culpa e lambendo os dedos engordurados no final. A infância era um filé à cubana, crocante e despreocupado.

No lanche do colégio, um Diamante Negro por dia. Também tinha a pizzinha da cantina, escorrendo óleo, que me faz salivar vinte e cinco anos depois. Em casa, pacotes de bolacha recheada de chocolate. Na faculdade, uma overdose de provolone à milanesa causou um trauma estomacal que carrego até hoje. Quando comecei a trabalhar, pães de queijo à tarde. E são dessa época minhas últimas lembranças da vida trash-relax.

Costumava rir da mulherada que ficava contando quantas calorias tinha tal coisa. Quem diria que hoje eu estaria plantada na frente da gôndola, analisando a quantidade de sódio na embalagem, desviando o olhar do creme de leite e escolhendo um pão 200 grãos.

E ainda temos que optar: óleo de girassol, de canola, de milho, de linhaça, de semente-que-nunca-ouvi-falar. Açúcar cristal, mascavo, demerara, orgânico. Sim, quase todos existiam antigamente, mas não se pensava muito em qual teria uma melhor performance no seu exame de sangue.

A cada ano, novas descobertas: ovo faz bem, ovo faz mal. Chocolate pode, chocolate não pode. Haja conhecimento. Sem falar que é caro ser saudável. Vai comprar um tomate orgânico e você logo se convence de que o agrotóxico vale a pena. Dá até um gostinho especial.

Tem coisa que não consigo, tipo arroz integral. Outro dia tomei leite com linhaça e quase vomitei. Mas já fico bem feliz em andar de bicicleta, comer fruta todo dia e não encontrar guloseimas na despensa.

Agora, minha consciência é light. E vira e mexe, ela pesa. Como na Hamburgueria do Sujinho, quando me deliciei com a melhor batata frita e a melhor maionese da Terra.

Bons momentos aqueles sem fazer ideia do colesterol. O russo que descobriu as letais moléculas nunca tinha provado a coxa creme do Estadão. Aposto que ia ficar bem quietinho.

Flores e tempos

21 Nov

Minha orquídea floriu. Tempo

Calma, deixa eu explicar melhor: minha orquídea floriu, depois de um ano de espera. 365 dias. 8.760 horas.

Sempre adorei orquídeas, mas esta é a primeira que não joguei fora depois que as flores caíram.

E acho que isso diz muito sobre algo que temos cada vez menos: paciência.

A velocidade do mundo de hoje nos suga para um tornado de pressa. Uma vontade incontrolável de acelerar o tempo para que tudo chegue logo, mesmo que não saibamos o quê.

Não temos paciência para esperar os três segundos da máquina de cartão.

A página da internet não carregou em menos de cinco, tá lenta.

O farol abre e o carro da frente não arranca, buzina nele.

Um velhinho se demora na calçada impedindo a passagem, aflição.

Ler um texto deste tamanho, é para poucos.

Fico feliz de ter esperado a minha orquídea, regando-a toda semana. Trabalhei a minha paciência, a minha ansiedade, e ela ter aberto sua primeira flor esses dias é como se me olhasse sorrindo e dissesse: viu?

Utilidade pública

16 Nov

Era uma vez uma rua sem saída.

Antes

A moça bonita passa e joga uma bituca de cigarro, rosa como seu batom desbotado e cinza como seus pulmões.

O executivo ofegante joga um comprovante de pagamento, do bife à parmegiana que aumentou em alguns pontos seu colesterol.

A loja ao lado joga uma caixa de produtos vazia, como o cérebro do seu dono.

Na caixa vazia o estudante joga um copo de café, que o manteve acordado na aula que não lhe interessa.

Depois

Uma empresa joga um vaso com uma planta. Alguém leva o vaso e ali deixa a planta e a terra, mortas como aquela calçada, fazendo companhia para a bituca, o comprovante, a caixa e o copo de café.

E a entrada da rua vira um lixão.

Por muitos dias passei ali, com a esperança de que o ex-dono da planta a visse, que a prefeitura limpasse, que o lixeiro levasse. Mas nada aconteceu, nada ia acontecer.

Munidos de pá, vassoura e balde, destinamos um tempo do nosso feriado para limpar aquela sujeira que não era nossa, na rua que consideramos nossa.

1 dia depois

Enchemos dois sacos grandes e uma caixa. Colocamos no porta-malas. Levamos a um lixo adequado. Esfregamos com água e sabão. Corremos o risco de uma leptospirose. Nos sentimos mais leves.

No dia seguinte, uma caixa. Hoje, talvez, novas bitucas e copos de café.

A cidade é suja como quem está nela. Porque tem diferença entre quem é da cidade e quem apenas está. Sem compromisso, sem consideração.

Quem fica sem saída somos nós.