Archive | May, 2011

Geração babá

31 May

As mulheres conquistaram seu espaço. Advogadas, médicas, publicitárias, administradoras, veterinárias, jornalistas. E babás.

A ascensão profissional da mulher aumentou seu cargo, seu salário e, conseqüentemente, seu tempo fora de casa. Se quer ter um filho, tem de administrar isso com a carreira. Umas deixam com a mãe, coitada, que já teve a paciência de criar os filhos e agora, com o dobro da idade, tem que correr atrás da criança – mas faz com a maior boa vontade. Outras deixam na escolinha e outras, quando a criança é muito pequena, com a babá. Eu mesma fiquei com uma nos meus primeiros anos de vida, a Leo. Nem lembro dela, mas acho que me tratava bem. Depois vieram meus irmãos e minha mãe resolveu parar de trabalhar fora e cuidar da prole.

A diferença é que hoje a presença da babá está se tornando cada vez mais significativa, pois grande parte das mulheres volta pro mercado de trabalho. Em dois clubes de elite pelos quais sempre passo na frente, só vejo crianças entrando com suas respectivas babás – elas e sua roupa branca, de fácil identificação. Na rua, empurram o carrinho do bebê, levam a menininha pro balé, buscam o garotinho na escola. A babá é o sinal dos tempos.

Sei que um dia precisarei de uma dessas verdadeiras mães de aluguel. Só fico possessa quando acontece o que vi outro dia em um restaurante: dois casais conversando animadamente enquanto duas babás, em uma mesa jogada para lá, ouviam a conversa entediadas e cuidavam das crianças. Também já presenciei babá em reunião de amigos, muda e isolada num canto com o bebê, enquanto os outros se divertiam. Não concordo em levar a babá em um momento de lazer, tempo valioso em que os pais deveriam dar (e deveriam adorar dar) atenção ao filho. Eduque a criança para se comportar em público, leve um joguinho, invente uma brincadeira. Dê um tempo para a babá e assuma o seu papel.

Crimes & Cia

25 May

Parece que a moda é matar. Matam-se os pais. Mata-se a ex-namorada. Mata-se o filho pequeno. É a manchete-commoditie do horror pós-moderno: todos os dias uma atrocidade para você.

Esta semana é a menina de dezoito anos que matou o amante no motel. Está na TV, está no rádio, está na internet. Um assassinato light, perto de uma Von Richthofen e de um Nardoni. Outro dia foi o maluco que entrou na escola atirando em crianças. Semana que vem será outro, e mais outro.

O fato é que, inevitavelmente, um por um, a mídia esquece. As pessoas esquecem. Esquecem porque não é com elas. O vazio no dia a dia não é com elas. O que se matou foi muito mais que um corpo, algo grandioso demais para alguns segundos no jornal. Mataram-se relações, sonhos, significados, coisa que só os mais próximos conseguem sentir, e vão sentir pelo resto de suas vidas.

Aí vem a lei e dá pro bandido indulto de Natal. Indulto de Dia das Mães. O que passa pela cabeça desse ser temporariamente livre? Existe alguma ínfima possibilidade dele sentir saudade da cela que divide com mais 50, comendo mal, dormindo mal, o cérebro regredindo? É claro que o fulano não volta. O benefício é dado ao preso que tem pena de até oito anos de prisão e tenha cumprido 1/3 dela, desde que não seja por crime hediondo. Ou seja, é pros bandidos bonzinhos. Sorte deles, que têm uma chance novinha de fazer coisa pior – e virar manchete.

Divã

20 May

E-mails que abordem seu desempenho sexual e prometam melhorá-lo. É spam.

Fotinhos enviadas por amigos. É spam, mesmo porque seus amigos sempre prometem mandar fotos daquele evento mas nunca enviam.

Cobranças de banco. Essa é um alívio. Não é por email que avisam que o seu nome está no Serasa ou que você deve uma nota. Eles vão contatar você pela velha e boa carta.

Cancelamento de entrega. Mesmo que você não tenha comprado nada pela internet nos últimos três meses, esse e-mail terá o poder de deixá-lo na dúvida. É spam.

Dietas milagrosas. Emagreça comendo, emagreça dormindo, tira a bunda da cadeira e vai caminhar no parque.

Português duvidoso. Esses dias recebi um “Viage com TAM e MasterCard”. Spam na cara dura. Mas quem fugiu da escola pode nem perceber.

Vídeos eróticos. Perante Russian virgins e outras tentações, controle-se e delete.

O fato é que muita gente ainda cai. Espalham-se vírus. HDs perdidos, desastre total. Mas por quê? Se olharmos bem, todas essas mensagens tem algo em comum: mexer com o psicológico.

As pessoas são carentes. Elas adoram receber fotos de amigos, mesmo que aquele Haroldo lhe pareça estranho. As pessoas duvidam delas mesmas. Podem estar com as contas em dia, mas vão achar que o banco talvez esteja cobrando alguma coisa, ou que compraram algo e se esqueceram. As pessoas tem baixa auto-estima. Não se entendem com a balança e esperam que um e-mail tenha o efeito de uma lipo. As pessoas tem desejos. Querem viajar (com “j”, por favor) a lugares magníficos, e quem sabe aquela não seja a oportunidade da sua vida. As pessoas tem taras sexuais reprimidas, e um videozinho, que mal tem?

Os e-mails de Viagra ninguém abre mais. Mas nos outros casos, pagar um terapeuta daria menos prejuízo.

Pequenas grandes invenções

10 May

WD-40. Na primeira vez que usei, fiquei boquiaberta. Aquela porta que me incomodou por meses com seu ranger irritante, em um segundo, ficou muda. Outra porta barulhenta. Silêncio. Sempre fico chocada, porque sempre funciona.

Batata palha. É claro que você já experimentou batata palha com strogonoff e com cachorro-quente. Mas e batata palha com arroz e feijão? Batata palha com kibe? Batata palha com salada? Batata palha com picadinho? Definitivamente, o acompanhamento do século.

Espremedor de limão. Não aqueles comuns, mas aquele que você pega com uma mão só, coloca meio limão dentro e espreme até o talo sem quase fazer força. Bem que meu marido dizia e eu não botava fé. Nem quero mais o espremedor do Philippe Starck.

Devia ter WD pro sistema público de saúde. Imagina só, você precisa e ele nunca falha! Uma maravilha. Devia ter batata não vencida na merenda escolar, que para muita gente ia ter sabor de batata palha. E devia ter espremedor para político corrupto, ia escorrer veneno à beça. Algum inventor se habilita?

Dúvida cruel

2 May

Ter ou não ter, eis a questão. Sim, um filho, saído das suas entranhas, pequeno ser em que você vai se reconhecer, que vai criar, amar, nada mais nada menos do que para sempre.

Casou, começou: e o bebê? Ninguém pensa que é bom viver em forma de casal, a dois, simplesmente, sem hora para acordar, para almoçar, sair à noite, voltar de madrugada, viajar de mochilão, se perder pelo mundo?

E digamos que você quer ter. Mas quando? Tem gente que sonha, e no sonho vem até o nome. Dizem: quando for a hora você vai saber. Será que toca um sininho na cabeça sussurrando vamos lá, vamos lá!?!

Outra dúvida: quantos? Penso um. Aí vem alguém dizer que é egoísmo, que a criança vai ser solitária. Primeiro: ter irmãos não garante que eles serão amigos. Amo meus irmãos, mas nem sempre é assim. Segundo: os preços exorbitantes de um bom jardim da infância – quem dirá o ensino médio e a faculdade. Terceiro: famílias com uma prole de dois ou mais me dá desespero só de olhar. Um faz birra, o outro chora, o outro esperneia e os pais não sabem quem acudir – talvez eles mesmos. Assistir Supernanny também contribui com o terrorismo. Se o caso é aumentar a família, podemos ter um gato, ué.

Egoísta é ter um filho para depois ter quem cuide de você. Comece já um plano de previdência, oras.

Não quer dizer que eu não me derreta quando passa um bebê. Que eu não pense em nomes, de menino e menina. Que eu não brinque com meus priminhos e me surpreenda com tiradas incríveis. Mas a idade biológica ainda me concede uns anos de divagação. Acho que o gato virá primeiro.