Archive | April, 2011

ÉssePê

25 Apr

Frutas frescas do Mercadão. Fila para o pastel de bacalhau. Todos os filmes em cartaz. Cinema lotado. Virada Cultural. Batedores de carteira. Antiguidades do Bixiga. Estacionar no Bixiga. Aeroporto de Congonhas. Barulho de avião. Pistas novas na marginal. Tudo parado na marginal. Supermercado 24 horas. Único caixa aberto. Delícias gastronômicas. Valet nos restaurantes. Ar puro do Morumbi. Trânsito para o Morumbi.  Coxa creme do Estadão. Mendigo na calçada. Metrô. Sé na hora do rush. Litoral norte. Serra congestionada. 25 de março. 25 de março no feriado. Show imperdível. Ingresso com cambista. Picanha do Juarez. Espera do Juarez. Terra da garoa. Enchente. Arte urbana. Pixação. Shopping center. Multidão. Ciclofaixa. Só domingo. São Paulo. Tráfego de amor e ódio.

Indigestão

12 Apr

Este texto é uma homenagem a Pequena Miss Sunshine. Eu, que já achava o filme brilhante com sua sátira aos concursos infantis de beleza, elevei-o a obra-prima depois do que vi no fim de semana passado: o concurso real.

Pouco vejo TV, mas naquele fim de domingo estava fuçando os canais, até parar no Pequenas Misses, do Discovery Home & Health. Difícil descrever o que senti ao ver meninas de 3 a 10 anos vestidas como bonecas, maquiagem até não poder mais e penteados espalhafatosos, subindo ao palco com sorrisos artificiais e dancinhas patéticas em direção a um bando de progenitoras alvoroçadas na platéia. Quase vomitei.

Pensei em desligar, mas algo me prendia na tela: até onde iria aquilo? Continuei, retorcendo-me no sofá. Seguiram-se os depoimentos das mães, as cabeças de tudo, revelando uma doença crônica da modernidade: a falta de valores – ou que outra coisa faria uma mulher atirar sua cria aos leões de uma competição tão cruel?

No dia seguinte, minha amiga Cris enviou uma reportagem do Estado de S. Paulo sobre o Fashion Weekend Kids, onde mini-socialites desfilam dentro e fora da passarela, com bolsinhas Givenchy a tiracolo. Assustador. O que mais querem na vida é juntar suas mesadas para comprar um Chanel ou Dior. Ao lado, lá estão elas: as mães, mais uma vez. Assinando embaixo e criando monstros para o futuro.

Mães frustradas, que encontram nesse circo de superficialidade um sentido para suas vidas, frustrando as próprias filhas – hoje ou amanhã. Psicológico? Patológico? Freud deve explicar.

Ontem, descobri que o Discovery Home & Health só pegou aquele dia em casa porque a NET estava aberta. Vou guardar o sal de fruta.

Sonhos de consumo

4 Apr

Sonho de consumo é uma coisa relativa. Depende da pessoa, e do momento da vida.

Por exemplo, tem gente que quer uma SUV. O dono destes cobiçados dinossauros do trânsito, geralmente, é uma pessoa que não tem família nem tralhas para carregar em todo aquele espaço interno. Não arruma vaga em que caiba o monstrengo, polui mais o meio ambiente, atrapalha a visão, mas eu é que não vou me meter no sonho dos outros.

Tem gente que é mais humilde. Quer uma peça de roupa da coleção limitada da Stella McCartney para C&A. A vontade é tanta que vale a pena enfrentar filas na porta da loja popular antes de abrir. A cena é um mix de mulheres alteradas se estapeando em meio às araras, muitas das quais nunca haviam pisado na dita loja, provadores lotados, demora para pagar, ah… mas nada se compara ao orgulho de sair com uma sacolinha (e o cabide!) exclusivos da estilista.

Até outro dia, um dos meus sonhos de consumo era uma viagem a Fernando de Noronha. Mas acordei dele com uma britadeira. De segunda a sábado, de manhã e à noite, firme e forte ela está lá. Adicione uma casa de frente que faz reforma aos domingos, por volta das 8h. O pedreiro, a furadeira e aquele barulho que parece furar o cérebro. Bizarro? Mas é. Para completar, tem os vizinhos que se encontram de manhã e falam da vida, passeando com cachorros que não páram de latir. Tanta alegria matinal só me dá mau-humor.

Tampão de ouvido é uma solução barata, mas pouco efetiva. Fora que ficar com aquela borracha no ouvido é uma idéia um tanto aflitiva, e possivelmente nojenta quando você tira.

Pensamos em mudar de quarto. Decepcionante ter que dormir no quarto pequeno por obrigação, mas era uma boa saída. Até eu descobrir que é lá atrás que fica a britadeira. Beco sem saída.

Hoje, sonho com uma janela antirruído. Porque meu paraíso, neste momento, seria dormir direito. Vou juntar um dinheiro debaixo do colchão para um dia alcançar a paz na cama. E voltar a sonhar que estou em Noronha.