Furacão 2015

1 Jan

É dezembro, gritava-me galhetao calendário, sem dedos ou dó. Esvaía-se um ano louco. Um ano que desde o princípio, já sabíamos, seria como uma caixa de surpresas, sem poder prever em que medida.

Foi o ano de voltar ao Brasil depois de dois anos e meio fora, de ter São Paulo injetada na veia sem parcimônia. 2015 não teve anestesia, sala de pré-operatório, período de adaptação, não deixou entrar no jogo como café-com-leite. Esteve mais para mão na massa, engole o choro e salve-se quem puder.

Se faltou tranquilidade, sobrou adrenalina para reconstruir quase do zero, outra vez, toda uma vida. Desfazer e entender pilhas de caixas e sentimentos. Estabelecer uma rotina inédita, com casa, trabalho e caminhos novos mesmo que já antes percorridos – porque já não somos os mesmos. Mal coube sentir saudade do outro lado do oceano, porque os pífios respiros eram instantaneamente tomados pela realidade do presente.

Teve finais de semana mergulhados na tese (como nunca), teve madrugadas mergulhadas no trabalho (como nunca). Teve pessoas queridas mais próximas (do que nunca), mas paradoxalmente também faltou mais tempo (do que nunca) para aproveitar suas vozes, olhares e abraços.

Teve notícia ruim por todos os lados, o Brasil e o mundo se descortinando em tons de apocalipse. O jeito foi continuar a olhar para frente – e continuar sem televisão.

Teve estresse, taquicardia, momentos em que tudo acontecia ao mesmo tempo agora. As 24 horas do dia parece que não bastavam para o tanto que precisávamos (e queríamos) fazer. Porque ninguém é de ferro, também teve acupuntura, fitoterápico e homeopatia a dar com pau.

Teve o esperado que não aconteceu, mas também teve o inesperado que aconteceu. 2015 foi nos surpreendendo a cada manhã, até o último dos seus incríveis 365 dias, que passaram como faísca. Faísca que nos manteve fortes e com energia para chegar, sãos, salvos e felizes ao seu último minuto – e nos 45 do segundo tempo, ainda teve sol e banho de mar para renovar e ganhar fôlego para um 2016 que acabamos de alcançar.

Minha orquídea, trazida para casa no meio do caos em meados de maio, se abre em botões agora, recordando que somos feitos de tempo, e que só com ele vêm os remédios e as respostas.

Hoje, em que 2015 já é ontem, agradeço a tudo que ele nos trouxe, dos tropeços aos milagres. Você não vai ficar marcado como o ano de grandes acontecimentos, mas como o de muitas pequenas conquistas, que se soubermos enxergar, foram preciosas. Seu ensinamento foi, pacientemente, nos mostrar o valor da paciência. Porque a recompensa pode demorar, mas ah, ela sempre vem.

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A volta

1 Aug

IMG_9009Parecia muito tempo. Dois anos e meio fora, uau. Lágrimas, abraços, e um mundo novo se abria à nossa frente. O primeiro foi de descobertas. Sangue pulsante para ver e entender o máximo possível daquilo tudo. Éramos um misto de turistas e moradores, a volta tão distante. O segundo foi vez de sentir-se em casa. De ter já os lugares preferidos, a rotina montada, sem deixar a curiosidade de lado para desvendar os detalhes mais escondidos. O terceiro meio ano, ah, esse passou voando, num misto de ansiedade e despedida.

A verdade é que parece que foi ontem que estávamos de mala, cuia e gato embarcando para o desconhecido de outro país. Passou como um raio e eis que chegou o triste e feliz dia do retorno. Agora era mais complicado: os abraços e lágrimas do embarque, os abraços e lágrimas do desembarque. Passei as últimas semanas em Barcelona olhando para os lugares com engasgo na garganta, incrédula de que a temporada já estava acabando. Comendo sanduíches de jamón e churros que tinham sabor de adéu. Devolvendo livros na biblioteca que me era tão íntima. Me despedindo dos amigos a cada encontro, de seu parlar català tão característico. Mergulhando na piscina onde aprendi a nadar, olhando o mar, pela “última” vez. Vendo minha bicicleta ir-se das minhas mãos – e também cadeiras, mesa, cama, sofá, meu espelho querido recolhido da rua, minhas almofadas de crochê que nem em sonho caberiam na bagagem. Costurava as memórias na minha cabeça para guardá-las apertadas, para sempre.

Para ajudar, chegamos em São Paulo num domingo de sol. Calmo e tranquilo, como a vida que tínhamos do outro lado do oceano. Lá, nesse respiro, pude desenvolver novos olhares sobre o mundo, sobre mim, e também sobre o lugar que me pariu e criou. Ouvi um amigo dizer que sair do país faz com que vejamos melhor o que havia de bom ali, na sua cidade natal. E é desse bom que nasce a saudade, sentimento que um echar de menos nunca vai expressar tão bem.

E eis que o relógio começou a correr. No cronômetro daqui, não havia um minuto a perder. Imersa outra vez no caos da metrópole, as sensações se mesclavam: raiva, conforto, decepção, energia, medo, coragem. Revivia sabores, sorrisos, paisagens. Comida da mãe, reuniões de família, garçons gente boa. Reaprendia a transitar pelas ruas, a entender os processos. Como numa tela em branco, desenhava um esboço de vida, que aos poucos ganhava suas cores. Casa, trabalho e caminhos novos, agora sem carro. Do zero, seguindo em frente sem pausas. O tempo, que no velho mundo quase dava para segurar nas mãos, lento que passava, aqui delas já escapava num piscar de olhos.

É sintomático que este texto só tenha ido agora para o papel. Fazem exatamente 6 meses. Meio ano de ritmo frenético injetado na veia a cada manhã, e o cérebro obrigado a processar. Algumas palpitações e insônias depois, ele já entendeu.

Há 6 meses embarcávamos de mala e cuia e gato de volta, para um lugar que nunca mais seria o mesmo, já que nós estamos diferentes. Do que mais sentia falta daqui? Do agito, 24 horas on. Ironicamente, do que mais sinto falta de lá? Da calma, da siesta que tanto me irritava. Como ouvi de outro amigo, o maior defeito de uma coisa é também sua virtude. O que faz enxergar que não existem lugares perfeitos, e cabe a nós extrair deles o seu melhor.

E ainda me pego maravilhada com pequenas coisas. Como o motorista do ônibus parar para você subir fora do ponto. O metrô cheirando a pão de queijo, o milho verde e a pipoca na saída. A jarra abundante de suco de laranja, a gritaria no bar, a alegria doida a cada esquina e que faz pensar: “só no Brasil!”. É bom estar de volta, retinas em treinamento, apesar de carregar no peito um coração eternamente dividido.

Hola, Brasil

14 Jan

Hoje fui na minha bicicleta verde até a biblioteca. Na volta, passei pela granja e comprei meus iogurtes preferidos. Acontece que neste último mês, os trajetos mais simples têm tido um quê nostálgico. Uma saudade antecipada de algo que em breve não será mais assim.

Isso vale para sabores, paisagens e qualquer coisa cotidiana que, por ser rotineira, já passava despercebida. É porque chegou a hora de voltar. Não exatamente “para casa”, porque agora, “casa” se torna mais um sentimento do que um lugar. Porém, é sempre um voltar: para as pessoas, os sabores e as paisagens, antes tão familiares.

Mas já que voltar significa recomeçar, os olhos nostálgicos também brilham de vontade. Estão prontos para escanear o que virem pela frente, junto com o coração, que aprendeu a viver na distância mas só precisa de um abraço para amolecer. Nova vida, num velho novo mundo.

Poucos dias para o reencontro. Reconhecer-te-ei?

Dois anos e meio nos separam, um tempo que vai além do que o relógio pode marcar. Porque ele não pode contar o que passa na gente por dentro – enquanto ele passa. Talvez, estejamos diferentes. Ouvi falar de você daqui de longe, boas e más notícias. A maior ansiedade é a de descobrir quem sou, dentro das suas entranhas novamente.

De repente, a bicicleta verde não será mais minha. Dela ficam apenas os lugares a que me levou, abrindo caminho para novos tons.

Leve

17 Sep

IMG_3988Viver sem carro é tão bom, uma leveza tão imensa, que fica até difícil quantificar. Depender de você mesmo, de suas pernas, ir e vir sem a necessidade de vagas, estacionamentos, pedágios, mecânicos, postos de gasolina e o estresse atrelado a isso. Quando a distância é maior, trens e ônibus que chegam no horário sem tanta lotação. Por outro lado, há lugares em que as quatro rodas têm um sentido. Significam um alento ao sofrimento, um ganho de tempo considerável e até mesmo essencial, quando a estrutura da cidade não permite a tal leveza, inclusive a massacra. Não vou entrar na questão do status, que é um fator de influência real, pois aí teria que discutir valores individuais. Quero apenas falar do carro como simples ferramenta de transporte, alternativa mais confortável quando não se têm outras boas opções. Num belo dia longínquo, São Paulo viu tornar-se inviável sua própria circulação. E nesse dia, o carro foi promovido a válvula de escape. A rejeição às decisões recentes do prefeito, de priorizar ciclovias e faixas de ônibus, vem da rejeição ao mau transporte público de décadas, à falta de planejamento de sempre, e por isso é até previsível. Porém, se não começarmos agora a evoluir, nunca chegaremos perto de sentir esse prazer na nossa cidade, o prazer do ir e vir sem a lata. O processo é doloroso e não poderia ser de outra forma. Quem depende do carro vai sofrer mais, por um tempo, enquanto quem não o têm terá (espero) seu sofrimento aos poucos diminuído. É como uma balança que começa a se equilibrar, até que o carro se torne menos necessário. Enquanto isso, paciência, e muita. Não dá para comparar nossa São Paulo com uma cidade de primeiro mundo, menor e organizada, onde o carro já se tornou supérfluo. Mas lembremos que essa cidade um dia não era assim, até que alguém estabeleceu prioridades e começou a agir. Sonhando com o dia em que São Paulo seja mais pedestre, mais duas rodas, e menos sofrida para todos.

Copa, estranha Copa

20 Jun

bandeiraJá havia me conformado há tempos com a estranheza de não estar no Brasil na primeira Copa do Mundo que ele sediaria desde que eu nasci.

Mas chegando o dia do evento é que tudo parecia mesmo raro.

Eu não estava de camisa verde-amarela. Não estava reunida na casa de alguém da família com quitutes e caipirinha, eu liguei a TV e eles falavam castelhano.

Estranhíssimo, ainda, foi ver bombas que não eram fogos de artifício. Um brasileiro sendo tristemente imobilizado pela polícia.

E, obedecendo à lógica do esquisito, foi conectada por Skype, celular e todos os aplicativos tecnológicos possíveis que acompanhei a abertura e o primeiro jogo com aqueles que mais amo.

A ideia de Copa, que aqui de longe já custava a se materializar, continuou virtual até o apito final. Sem escutar rojões, sem gritos alheios.

Porém, teve algo bem real. As lágrimas que vieram ao ver aquilo tudo passar, a natureza, as tradições, as crianças, o futebol, a torcida, a bandeira, as cores e até a duvidosa música de abertura. Uma mistura de clichês e raízes que cutucavam o coração por serem justamente tão clichês e tão raízes. Na hora do jogo, o hino reverberava em soluços, principalmente ao ouvir todos continuando a letra após a música parar.

À distância, as coisas tomam proporções diferentes, parecem melhores ou piores ao extremo. Se isso à primeira vista pode parecer uma distorção da realidade, prefiro entender que seja a forma mais pura de se ver o que é bom e o que é ruim de onde viemos.

“De onde viemos” é um sentimento único que se manifesta sem que possamos controlar, e ontem ele se manifestou como um colírio que deixava ver nitidamente o que temos de melhor. Porque, apesar dos pesares, temos.

É por isso que não consigo reclamar da abertura que tinha pouca gente, fazendo um comentário voraz como os que se espalharam pelas redes sociais. Ela foi para mim esplêndida, mesmo que pudesse ser melhor. Não consigo reclamar da seleção, mesmo com gol contra ou pênalti que não foi pênalti, porque ela em sua estréia me fez gritar gol três vezes, bem alto para ver se me escutavam na terra da garoa. Quando a tão questionada festa acabar, que continuem as manifestações contra o nosso pior.

Do lado de cá, não poderei dizer que vivi a Copa no meu país, mas que felizmente senti a Copa no meu país.

E vocês, aproveitem que estão aí, porra.

Eu acredito em universidade

18 Feb

O trote (trote?) grotesco realizado por veteranos da Cásper Líbero esta semana, amplamente divulgado na Internet, me fez voltar no tempo e recordar minha entrada na ECA, no final da década de noventa (o que me assusta, mas apenas por denunciar quantos anos já se passaram daquela época). Fui fazer a matrícula e meus veteranos, muitos dos quais seriam meus amigos e com quem tenho contato até hoje, me pintaram e registraram minhas mãos com guache em uma folha de papel, que ainda guardo em algum baú. Lembro do banho demorado para tirar toda aquela tinta, muito menos trabalhoso do que meu ano de intenso estudo, e insignificante perto da felicidade de entrar onde eu tanto tinha desejado.
Esses dias mesmo comentava, em uma conversa, como adolescentes podem ser cruéis em certas atitudes. A situação piora quando se trata de pessoas (pessoas?) que já passaram da adolescência, tiveram acesso a educação (educação?) e já ingressaram em uma boa universidade. É triste pensar que alguém nessas condições possa supor que tem o direito de humilhar alguém em praça pública, em um ato que pode ser chamado de violência, agressão, falta de respeito, menos de trote. A vantagem que os novos meios nos dão, hoje, é a ampla repercussão de casos como esses. Mas, eles serão punidos?
É especialmente triste para mim, que acredito na universidade como fonte de conhecimento e evolução social. Desde o início, tive que conviver com o descrédito de alguns chefes que não davam valor ao acadêmico, como a maioria dos profissionais do mercado. O dilema diário continuou, depois, ao me dividir entre o emprego como redatora e o mestrado, questionamento acalmado quando um grande professor deu sua aula sobre Pierre Bourdieu e as noções de capital e campos. Me compreendi como agente jogando em dois deles, de valores diferentes, e não podia esperar que as mesmas regras se aplicassem em ambos. Mais tranquila, continuei minha trajetória aqui e ali.
E, sim, ainda acredito em universidade. Acredito, tanto que recentemente parei tudo para me dedicar à minha tese de doutorado. Para me aprofundar em um tema que considero relevante, para voltar à universidade e novamente viver o seu dia a dia, mas de uma forma amadurecida e com um sentimento não de obrigação, que temos aos 18 anos, mas de escolha.
Tenho esperança de que, um dia à frente de uma sala de aulas, eu possa ser um uma pequena fatia do que meus melhores professores significaram para mim, despertando o interesse em crescer e contribuir para ampliar os limites do já visto. O acontecimento universitário que virou manchete reflete, principalmente, o problema generalizado, talvez o mais grave de todos os que se tem apontado no nosso país: o da falta de educação. Educação desde casa, propagada pela escola, seguida pela universidade e depois novamente em casa, para os filhos. É um ciclo. Um ciclo que deve aprimorar o conhecimento, mas, antes de tudo, aprimorar o ser humano.

Outras manifestações sobre o assunto:

http://www.brasilpost.com.br/gilberto-dimenstein/por-que-sinto-vontade-de-_b_4772267.html
http://www.brasilpost.com.br/bianca-santana/indignacao-tristeza-e-ver_b_4773249.html
https://www.facebook.com/daniela.abade/posts/10152278899656495

Do lado de lá

14 Oct

IMG_8691Deu 19h no relógio. Olho o céu para conferir se já havia escurecido, descobrindo que as luzes automaticamente acesas dos edifícios não me permitiram perceber a chegada da noite. Por trás do brilho da publicidade incansável, anoitece uma Hong Kong que nunca dorme.

Vista do alto do teleférico, de dia, é um mar de prédios e silêncio, uma baía azul-clara de paz e contemplação. Vista desde Kowloon, a ilha oposta, à noite, é um oceano de luzes, cores e janelas. Espetáculo de tecnologia vibrante, tela de computador acelerando nossos olhos e acendendo nossas mentes ininterruptamente.

Então, ao aproximar o olhar das ruas, vibra a Hong Kong das pessoas. Elas, que dão vida e sentido às luzes e arranha-céus. Elas, que circulam pela terra ou debaixo dela, seja nas calçadas, mercados e centros comerciais, seja nos metrôs amplos, novos, organizados e lotados, seja qual for o momento do dia, em uma hora do rush eterna. Elas, muitas das quais trabalham nas fábricas mais longínquas, produzindo a salários diminutos as maravilhas expostas pelas grandes marcas em Causeway Bay ou as quinquilharias amontoadas nas bancas de Mong Kok.
Hong Kong é do consumo, do trabalho, dos carros, das passarelas suspensas para pedestres (porque o chão já não basta). Eles são muitos. Tente parar de repente em uma calçada para tirar uma foto e você causará uma certa confusão aos que caminham com um objetivo mais certo que o seu, viajante deslumbrado que olha para cima e para os lados. Eles olham para a frente. Sem pausas.

Os cafés que encontramos em cada esquina em uma cidade européia são substituídos pelos patos apetitosos pendurados em vitrines, a costela de porco adocicada para viagem, a lanchonete especializada em tofu, o waffle em forma de bolas crocantes, as sobremesas de feijão, gergelim e outros sabores inesperados. Ao lado, sopas de tartaruga e farmácias que parecem mercados com suas ervas e especiarias medicinais. Mais adiante, senhorinhas idosas e bem das costas catam papelão, fazendo inveja ao nosso preparo físico capenga, enquanto trabalhadores se penduram sem medo em andaimes de bambu. No meio desse caos, você logo aprende a se virar, deixando-se perder para depois se encontrar. Aprende, inclusive, a não esperar guardanapo no restaurante e papel higiênico no banheiro, e a carregar seus próprios lenços de papel. Em casa, sapatos deixados na porta de entrada. Muito chá, calma, hospitalidade, arte, livros, caligrafia e a sabedoria de que o corpo do futuro é aquele que se cuida agora. Um choque bem dado de tradição oriental, mesmo sem estarmos exatamente na China.

Hong Kong fica em mim como paradoxo. A modernidade e o milenar se encontrando a todo momento, fazendo nossa cabeça girar em uma frequência outra. Volto para a tranquilidade de uma Barcelona que vejo com outros olhos, grudadas que estão em minha retina as imagens do lado de lá.